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Quando a Itália fica fora da Copa do Mundo: os clichês de sempre escondem a verdade




Em questão de 20 dias a Itália vai determinar (de novo) se estará classificada para uma Copa do Mundo ou não.

Com a possibilidade de se ausentar do torneio pela terceira vez seguida, a abordagem jornalística vai se atualizando, transformando o não-comparecimento da Squadra Azzurra em normal, e a qualificação para o mundial em algo digno de “breaking news”.

Há quase 20 anos, desde a Copa do Mundo de 2010, muita gente tenta explicar a decadência da seleção italiana de futebol com os mesmos argumentos. Quase todos incompletos ou imprecisos.

Em 2010 e 2014 teve mundial para a Itália, mas também teve queda precoce ainda na fase de grupos. O que foi dito naquele momento acabou sendo igualmente inconsistente e forte, tanto que continua batendo nas “paredes da internet” e ecoando por quase duas décadas.

O ponto é que, embora sejam análises consideráveis para criticar (no sentido negativo) o futebol italiano e seus estádios, presidentes e ligas, elas simplesmente não servem para justificar como a Itália não consegue mais se classificar para uma Copa do Mundo.




“A liga italiana enfraqueceu frente às outras”




Não há um coeficiente UEFA ou algo do tipo para indicar qual liga da Europa é melhor. Ele até existe, mas é um cálculo matemático puro para determinar qual país terá mais vagas nos torneios internacionais. A propósito, em 2024-2025, a Itália foi beneficiada por uma boa qualificação neste ranking.

Citando os estádios envelhecidos, a queda de faturamento e mau gerenciamento da liga e dos clubes (tudo verdade), o discurso costuma atrelar essas coisas ao enfraquecimento da Serie A, e o enfraquecimento da Serie A ao fato da Itália não se classificar mais para a Copa.

Há 2 problemas com isso.



1) Liga fraca ≠ seleção fraca



O primeiro é bem óbvio: ainda que a Serie A tenha definhado (ao ponto de perder o direito à 4ª vaga na Champions League em dado momento), isso não é um argumento forte o suficiente para arrastar a Azzurra para a lama.

Acreditar nisso nos obriga a assumir que países como Suécia, Macedônia do Norte, Turquia e Portugal (todos envolvidos em playoffs para o mundial com a Itália no passado) têm campeonatos nacionais melhores e mais sólidos. O que nunca foi verdade.

Mas se a ideia é comparar a Itália com os supostos rivais, e não as “zebras”, podemos pensar em Portugal.

A liga de Portugal é inferior à da Itália, mas a seleção portuguesa é melhor que a italiana há bons anos. No cruzamento da repescagem de 2022, a Itália pegaria Portugal pela vaga, mas caiu para a Macedônia do Norte antes.

Quais foram os últimos campeões do “Suecão”? Em 2018, no regulamento antigo dos playoffs, os azzurri pegaram os suecos duas vezes (o que normalmente facilita tudo para o time mais forte) e perderam.

A Noruega liderou o grupo das eliminatórias de 2026, vencendo a Itália e deixando os azzurri na segunda posição. Quantos pontos fizeram os três primeiros colocados da liga norueguesa em 2024-2025?

É por isso que a tese da “liga fraca” é pobre nessa discussão. A Itália está literalmente perdendo a vaga na Copa para países cujas ligas são inferiores à sua. Paralelamente, países com tradição em Copas seguem marcando presença, independente do que se passa no campeonato nacional.

Fica parecendo que o argumento serve apenas para a Itália e, se esse é o caso, o argumento é muito elementar.



2) Campanhas em torneios internacionais



A Inter decidiu duas vezes a Champions League nos últimos anos, mas ficou no vice (Reprodução / Youtube SBT)


Na mesma perspectiva, as campanhas em competições internacionais da UEFA (Champions, Europa e Conference League) também são levadas em consideração para derrubar o status da Serie A.

Admiravelmente, todavia, a descrição é sempre rápida e bem genérica.

Como dito, até para quem gosta do coeficiente UEFA a Itália já teve boa performance, que não serviu de nada no fim das contas.

É bem verdade que nenhuma equipe italiana conquista uma Champions League desde 2010. No entanto, desde a Copa do Mundo 2014, a Itália foi representada 4 vezes em finais do torneio, sendo 1 contra o melhor Real Madrid da década passada e 1 contra o Barcelona “MSN”.

Nas semis de 2024-2025, edição mais recente, a Inter empatou com o Barcelona fora de casa por 3×3 e venceu na volta por 4×3, em um jogo de duas viradas.

Expandindo para as outras competições, de 2014 pra frente, mas ainda considerando apenas finais, o resultado é o seguinte:



CompetiçãoFinalTime italiano
Champions League 2014-2015Juventus 1×3 BarcelonaVice
Champions League 2016-2017Real Madrid 4×1 JuventusVice
Europa League 2019-2020Sevilla 3×2 InterVice
Conference League 2021-2022Roma 1×0 FeyenoordCampeão
Conference League 2022-2023Olympiacos 1×0 FiorentinaVice
Europa League 2022-2023Sevilla 1×1 RomaVice
Conference League 2022-2023Fiorentina 1×2 West HamVice
Champions League 2022-2023City 1×0 InterVice
Europa League 2023-2024Atalanta 3×0 LeverkuksenCampeão
Champions League 2024-2025PSG 5×0 InterVice


A quantidade de “vices” impressiona, é um bom gancho para críticas sobre capacidade de decisão, mas também quase invalida imediatamente o discurso de decaída da Serie A.

Nenhuma liga fraca dentro do seu continente atingiria esses números.

Aliás, desde 2014 nenhuma equipe portuguesa chegou à final de Champions, Europa ou Conference League. Paralelamente, a seleção nacional venceu uma Eurocopa, assim como a Itália, e ainda levantou a Nations League duas vezes – e claro, se classificou para todas as Copas.




“O futebol italiano não revela bons jogadores”




Donnarumma após a Itália perder para a Noruega e ir parar na repescagem (Rerodução / Youtube SKY)



Esse é outro argumento genérico e opinativo, sendo que o máximo que dá para consultar são valores pagos por jogadores italianos em transferências e salários.

Tomando a mesma liberdade desfrutada por este “ataque”, porém para “defender” a Squadra Azzurra, dá para afirmar que há pelo menos 1 jogador com status “bom” ou “ótimo” em 3 dos 4 setores do campo.

Vamos levar em conta a última convocação da seleção italiana.

No gol, Donnarumma (Manchester City), apesar de algumas falhas com a camisa da Itália, não se discute.

Na zaga, reunir os nomes de Calafiori (Arsenal), Bastoni (Inter) e Dimarco (Inter) deveria ser suficiente para, no mínimo, se classificar para o mundial.

No meio-campo, a mesma coisa. Tonali (Newcastle) e Barella (Inter) se encaixam com qualquer outro nome para superar seleções da Macedônia do Norte, Suécia, Turquia, Gales, Bósnia ou Irlanda do Norte.

O problema está no ataque, mas com algumas observações, ainda que seja bem difícil defender qualquer um dos convocados por Gattuso, Spalletti ou Mancini.

Porém, é essencial lembrar que, embora hoje os tratemos como joias ou bons atacantes, Iaquinta, Inzaghi, Toni e Gilardino ocuparam o ataque da Itália campeã em 2006 numa situação bem distante das estrelas Totti, Del Piero, Pirlo, Cannavaro ou Buffon. Todos eram bons de cabeça, um era melhor de rebote, outro era bom de briga com zagueiros, mas nenhum era craque e todos marcaram pelo menos 1 gol no mundial daquele ano.

O ponto é, ainda que a questão do ataque seja um problema admitido, destacar essa fragilidade sobre o sumiço da Itália em mundiais é simplesmente insuficiente quando pensamos nos demais setores do campo. Fica parecendo que o ataque é um vírus poderoso que contamina e debilita os demais atletas.

Por mais que as críticas existam e sejam justas quando vão nas direções de Retegui, Kean, Raspadori, Politano e Orsolini, o conjunto é (ou deveria ser) mais do que suficiente para liderar um grupo de eliminatórias ou superar Suécia, Macedônia do Norte, Irlanda do Norte, Bósnia ou Gales numa repescagem.




Então qual é o problema?




Como a Itália foi campeã da Euro 2020, é possível admitir que o correto foi feito ao menos uma vez. Ou seja, não se trata exatamente de uma maldição que perdura desde 2018. Aliás, como dito anteriormente, esse título invalida as teses de “liga fraca” e “jogadores desqualificados”. Ora, se isso é verdade, então o que aconteceu em 2021? As fragilidades da Itália entraram em lockdown somente durante a disputa da Euro?

Portanto, estamos falando de uma geração capaz.

Quem assistiu aos jogos da Azzurra antes, durante e depois da Euro, independente de qual fosse o treinador, notou nitidamente uma atitude e mobilização diferentes precisamente durante o torneio.

Uma das cenas clássicas quando se fala de seleção italiana, seja qual for a época, é a vibração e o entusiasmo durante o hino nacional. Contudo, a mais pura verdade é que, com exceção da Euro, toda essa energia é dissipada assim que a música acaba.

Com ares de “missão cumprida” após o prestígio adquirido junto com a taça da Eurocopa, treinadores (Mancini e depois os outros que vieram) e jogadores entraram numa zona de conforto, na qual não há consequências para a não classificação para a Copa do Mundo. E talvez seja esse o problema. A falta de identificação (do italiano “appartenenza”), algo que nem as presenças de Buffon e Gattuso na comissão técnica conseguiram mudar.

Quer mais uma evidência? Até mesmo Gattuso, que claramente está abaixo de Mancini e Spalletti na carreira de treinador, e que foi contratado para injetar energia na seleção, se rendeu ao conformismo ao (inacreditavelmente) culpar o regulamento das eliminatórias pelo fracasso da Itália.

Tem algo de errado aqui ou não?

Falando de jogadores, há um caso que serve bem para exemplificar esse cenário: Lorenzo Insigne. Responsável pela vitória da Itália contra a Bélgica nas quartas de final, o atacante deixou o Napoli logo no ano seguinte ao título com a Azzurra para ir jogar no Toronto FC. Por mais que tenha dito esperar novas convocações para a nazionale, aconteceu o que todos imaginavam: ele praticamente “se aposentou do futebol” e abandonou a seleção italiana ao se mudar para o Canadá. Quase como quem diz: “a missão foi cumprida na Euro”.

Enquanto a seleção brasileira vive seu drama de qualidade, no sentido de esperarmos um craque em cada posição, como antigamente, a da Itália nos faz acreditar que, pra eles, ser convocado é um saco. Que todos odeiam a data FIFA. Que ser jogador da seleção italiana não atrai prestígio e muito menos obrigações e consequências.

É por isso que as justificativas de sempre e os clichês batidos sequer chegam perto de tocar o problema. É tudo muito genérico. É quase como falar que na Itália se come bastante pizza. O futebol é simples, mas não é necessariamente tão óbvio.

Não há teses malucas ou profundas quando um time brasileiro cai na fase de pré-libertadores. É simplesmente uma equipe que não fez sua obrigação, independente do rival, do local e do ano.




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